Jornada da OAB sobre IA destaca confiança e pensamento jurídico como diferenciais no futuro da advocacia

A capacidade de compreender o cliente, construir estratégias e assumir a responsabilidade pelas decisões jurídicas deverá diferenciar a advocacia em um cenário no qual a inteligência artificial já executa parte das tarefas operacionais. Essa foi uma das principais conclusões do quarto encontro da Jornada 4 do ciclo de seminários “Advocacia em Tempos de Inovação — Desafios e Oportunidades da Profissão”, realizado na quinta-feira (27/8).

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Promovida pelo Conselho Federal da OAB, por meio da Escola Superior de Advocacia (ESA Nacional), a atividade abordou “O futuro da advocacia”. Participaram a conselheira federal pelo Mato Grosso do Sul e presidente da Comissão Especial de Direito Securitário, Gaya Lehn Schneider, e o advogado, professor e ex-presidente da OAB-GO Lúcio Flávio Paiva. A coordenação ficou a cargo do conselheiro federal pelo Espírito Santo Luiz Claudio Allemand.

Evolução da profissão

Gaya Schneider apresentou um panorama da evolução da advocacia, desde suas origens ligadas à retórica, à defesa oral e à ética até a institucionalização da profissão, a informatização dos escritórios, o processo eletrônico e a chegada da inteligência artificial generativa.

Segundo ela, a IA deixou de ser apenas um diferencial e passou a constituir um requisito competitivo para os escritórios. Para a conselheira, as sociedades de advogados tendem a se tornar menos piramidais, mais enxutas e hiper especializadas. Atividades repetitivas poderão ser automatizadas, enquanto profissionais mais experientes deverão concentrar-se em estratégia, relacionamento e análise de problemas complexos.

Ela pontuou que os escritórios também deverão trabalhar com equipes multidisciplinares, formadas por advogados, engenheiros de dados, profissionais de produtos jurídicos e especialistas em inteligência artificial.

Apesar da transformação tecnológica, Gaya Schneider afirmou que elementos tradicionais da profissão permanecerão centrais, pois a oratória, a negociação, a escuta ativa, a empatia, a ética e a capacidade de transmitir confiança não podem ser reproduzidas integralmente pela máquina. “A advocacia não é só peça processual. A advocacia não é só simplesmente aquela técnica que você coloca nos autos. Ela é esse misto de habilidade humana”, afirmou.

A conselheira também apontou o uso de sistemas de relacionamento com clientes, ferramentas de inteligência de mercado e jurimetria – aplicação de métodos estatísticos e análise de dados ao Direito. Esses recursos podem ajudar os escritórios a acompanhar demandas, identificar setores com maior litigiosidade e compreender melhor os mercados nos quais seus clientes atuam.

Comoditização do serviço jurídico

Por sua vez, Lúcio Flávio avaliou que a inteligência artificial provocou a “comoditização” de parte do serviço jurídico. Atividades que anteriormente eram especializadas e escassas, como pesquisa de jurisprudência, análise de documentos e elaboração inicial de textos, tornaram-se mais rápidas, padronizadas, acessíveis e abundantes.

Para ele, isso não significa o desaparecimento da advocacia, mas exige uma revisão dos diferenciais profissionais. “O domínio técnico e a boa escrita continuam relevantes, porém já não são suficientes quando utilizados isoladamente.”

O palestrante defendeu que a IA seja empregada para ampliar a capacidade intelectual do advogado, sem receber a responsabilidade pelo pensamento e pela decisão. “Nós temos que usar inteligência artificial, mas não podemos terceirizar a nossa capacidade de pensamento. A partir do momento que o advogado terceiriza sua capacidade intelectual para a máquina, ele está cada dia se tornando menos advogado”, alertou.

Lúcio Flávio também utiliza a ferramenta para refinar peças e raciocínios jurídicos. Segundo ele, a IA pode produzir versões alternativas, testar a consistência das teses, apontar contradições, questionar premissas e analisar a pertinência das provas. A decisão sobre o que será protocolado, contudo, continua pertencendo ao advogado.

Coordenador da Jornada 4, Allemand reforçou a necessidade de domínio das novas ferramentas sem abandono das competências humanas. Ele sintetizou a necessidade de adaptação da profissão. “Não se luta contra a máquina, mas com a máquina. Eu preciso conhecer a regra do jogo para não ser vítima de algoritmo”, disse.

Transmissões

Para receber o certificado de horas complementares, é necessário ter realizado a inscrição no site do evento e acompanhar a programação ao vivo pela Plataforma de Eventos do Conselho Federal da OAB, estando o participante devidamente logado no sistema. Cada palestra da Jornada emitirá certificado de participação de uma hora de atividade complementar.

Com caráter exclusivamente expositivo, sem direito à certificação, haverá transmissão no canal do YouTube da OAB Nacional.

– 28 de agosto (sexta-feira): Limites éticos do uso da IA

 Confira a programação.

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